Friagem e quentume
Está frio.
Uma sensação térmica que eu gosto.Claro que encasacado, com gorro na careca e todo encapotado.
Pedalando eu já retirei tudo isso e estou aquecido com minha camiseta estampada com pássaros em origami e minha bermuda preta.
A descrição cotidiana.
Acabo por terminar o desenho estampado numa tela quadrada de setenta centímetros.
Uma vez um aluno me perguntou quanto media o outro lado do quadrado, depois de eu dizer que um dos lados media dez centímetros.
Ele não sabia e depois aprendeu.
A partir destes detalhes perguntativos eu me dei conta que o óbvio não existe.
O que é óbvio é óbvio para mim.
Outra questão é o Para Mim fazer.
Aquela história que o Mim não faz nada, a não ser fazer pra mim.
Outra questão é aquele desenho da avaliação que mostra um triângulo e seus lados X, a e b.
O avaliador pergunta:
Qual é o X?
O aluno circunda o X desenhado e diz:
É Este aqui.
E por aí vai, tudo menos o óbvio.
Ao ser perguntado como se divide o relevo brasileiro, o aluno respondeu Re Le Vo, trissílaba paroxítona.
Rio porque o obvio só é obvio para mim.
O que eu diria do estudante que respondeu numa prova de história que o Vasco da Gama foi aquele que jogou com o Flu no Maracanã?
Diria que depende da formulação da pergunta, mesmo sabendo que hoje a abreviação é constante.
Um recorte do canal de duas cientistas pode causar confusão numa mente menos avisada.
Uma delas comenta sobre não comer pasta de dente fluoretada, depois não tomar condicionador, não fatiar e comer sabonete.
Conversando eu descobri que as duas cientistas orientam as crianças sobre charlatões.
Porém, um recorte não me forneceu esta informação.
Mais um perigo neste mundo de tantos perigos, assim como já nos havia alertado o Guilherme Arantes quando moço:
Cuide-se bem, perigos há por toda parte e é bem delicado viver de uma forma, ou de outra.
A minha forma você já conhece, qual seja, viver aprendendo e para aprender tenho que me cercar de pessoas.
Cuidar, cuidar e cuidar.
Sempre me pareceu óbvio que devo me cuidar para poder cuidar dos outros, mas sei que muita gente ainda não tem essa consciência.
Enfim, é tudo um cuidado coletivo.
Acordei cedo e fui terminar o desenho sobre a tela.
A única coisa que cuido neste caso é o controle das linhas grossas e finas. Comtrole do claro e do escuro.
Mesmo assim isso só acontece depois de linearizar um pedaço.
Paro, olho com certa distância.
Com certo distanciamento.
Depois vou acrescentando linhas.
São atos que de certa forma bordam com linhas pretas a tela branca.
O gosto por desenhar olhos vem daquela camada que me é inacessível.
Talvez uma camada mágica, espiritual.
Esta série se baseia nos olhos para construir a composição.
A princípio é uma questão formal.
Os olhos e suas linhas e formas, mas vai saber?
A frase do querido Águia de Haia, Rui Barbosa, dizendo que há mais mistérios entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia.
Por tudo isso prego e ativo a Filosofia da prática, do mãos à obra, ou mão na massa.
Sigamos com força atravessando a floresta incendiada da obviedade
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