Escrever brincante
Faz um tempo.
Pequeno espaço sem o pedal que me ajuda a acelerar o movimento das pernas.
Eu tenho uma letra musicada que diz:
Hoje eu posso ser um rio servil, um pedal de bicicleta.
Escrevi faz tempo.
Sempre fiquei a pensar na dificuldade de interpretar esta frase.
Eu queria me expressar pela letra, que eu podia e continuo podendo, fazer aquilo que o meu coração e a minha razão pedir que eu faça.
Neste trecho eu digo que a minha vida é como um rio que me serve água e movimento, assim como o pedal de bicicleta que impulsiona a roda.
Assim eu sigo, sendo que naquele momento nem estava imaginando que faria uma hora diária de bicicleta na academia.
O exercício de viver é magno, magnífico.
Exercito a cada instante o poder do diálogo já que muitas vezes me via num monólogo.
Ainda exagero nas palavras e nos gestos, mas o que acontece, acontece demasiado comigo.
Eu tenho uma ex aluna que trabalha com administração e escreveu dois livros.
Um a partir da experiência das férias dos filhos que gostam de resolver problemas com números.
O primeiro livro é uma série de exercicios lúdicos que envolvem um personagem e seus problemas matemátidos.
São, um filho e uma filha, como quase sempre, muito diferentes e ao mesmo tempo ambos sensiveis à Arte e à Matemática.
Meu coordenador me mandou que eu tomasse café na padaria e depois fosse até a unidade Boa Vista do Colégio.
Saindo de casa percebi a luz acesa que indica falta de combustível.
Minha cabeça sarada, ao entrar no posto que fica no meio do caminho, me levou direto à imagem desta mãe.
Abasteci e me dirigi à padaria.
Peço o meu café com leite médio sem espuma e meu pão com manteiga sem chapa.
Quando me viro, depois de pegar a bandeja, dou de cara com quem?
A mãe.
É sobre essa coisa que eu converso, assim como aquela história da mala da minha sogra aparecer no armário no lugar da mala antiga e quebrada.
Eu sei e tenho certeza que tem uma explicação racional pra tudo isso, mas nada me impede de achar isso bonito.
Assim diz minha outra letra musicada:
Há nossa energia elétrica na comunhão dos santos e na remissão dos pecados.
Acho que eu sei como fazer uma canção de amor.
Hoje eu não acho, eu tenho certeza.
Esse amor que envolve as múltiplas coisas bonitas e é neste momento que as coisas se tornam Pessoas e são interligadas pela energia elétrica de ambos.
Alguém já escreveu que essas coisas são para os dispostos e são mesmo.
Haja disposição sem esforço, sem drama, sem negatividade, ou tristeza.
A disposição em coletivizar, agregar, juntar e fazer de tudo para que a boniteza prevaleça.
Alguma deficiência sempre vai exisitir na nossa coisa humana.
Hoje, nestes dias, existem exames que são feitos logo após nosso nascimento e eles, minusciosamente detectam coisas que, com o cuidsdo necessário, vão nos proporcionar uma vida melhor ainda.
Eu que não tive a chance de pegar nenhum destes exames ao nascer, tive o privilégio de ser raptado com quinze dias, passar fome de mamadeira sem o bico furado e alguns dias depois ser derrubado do carrinho por três vezes.
Rio porque algum trauma a gente sempre encontra no caminho.
O que me resta é um resto imenso de possibilidades de contar histórias a partir de acontecimentos fantásticos e fabulosos.
No primeiro dia de aula, um professor arquiteto perguntou para nós, um grupo de alunos iniciantes, o que era que proporcionava todas as construções criativas da humanidade e eu, já sem pudor ou vergonha disse:
Deus.
Haja convicção para um jovem com dezoito anos num lugar Artístico e Arquitetônico falar sobre Deus.
Ingenuidade pura e até um certo desconhecimento, mas estava ali para aprender.
Foi um choque, um silêncio imenso, mas ao mesmo tempo, depois da aula, uma colega de turma veio me falar que a tia estava abrindo, no final daquele 1977, uma Galeria em São Paulo e me convidou para uma exposição individual de desenhos.
Tudo porque respondi que Deus era o construtor de tudo.
Tempos depois assisti Matrix, li o livro da Fayga, Criatividade e processos de criação e reescrevi o meu processo, contando sempre com a providência divina.
Dona Anna sempre dizia que pegava a providência com a mão.
A coisa que não perdi, reencontrei e continuei louvando a letra do Chico Cesar:
Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoas ruim, Deus me governe e guarde, me ilumine e zele assim.
Se eu quiser falar com Deus já é Gil me iluminando e garantindo que eu tenho que desatar os nós dos sapatos e não ter nada a ver com castelos suntuosos.
Enfim, a Nossa Casa da Razão Mágica é essa que chamamos de corpo e que pede movimento constante, mesmo que em algum momento, o movimento seja o da cabeça
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