Detalhes incongruentes
Bom dia professor.
Assim fui recebido pela moça da limpeza aqui na academia.
Ela ficou sabendo da minha profissão por causa de uma conversa que eu tive com ela quando ela tentava limpar com uma espátula os restos de cola dos degraus da escada.
Aqueles adesivos pretos e amarelos.
Mostrei que ela deveria deixar a cola um pouco de molho no solvente, para depois raspar.
Um trabalho manual exaustivo e ineficiente, já que a escada é enorme e seria necessário um solvente bem mais forte, além da necessidade do uso de máscara para que ela não inalasse aquele gás.
Neste interim disse a ela que eu sou professor de Arte.
Existem detalhes suficientes para enchermos de palavras inúmeras folhas de papel, ou as digitarmos nas telas.
Já havia passado pela experiência, mas não aprendi.
Comprei numa loja de conveniência um chocolate aerado e levei pra casa.
Ao abrir a embalagem vi que ele estava totalmente embranquiçado.
Não tinha pego a nota, comprei no cartão e não fotografei a situação do doce.
Fui pedir a troca e a gerente me garantiu que o aerado era assim mesmo.
Assim mesmo?
Eu disse que ia trocar por um Talento de mesmo preço e ela me disse que eu não podia.
Perguntei a ela como garantir que o outro aerado não estava no mesmo estado.
Ela me disse que tinha que ser assim e eu entreguei o estragado na mão dela dizendo que não entraria mais naquela loja e que eu não ficaria nem mais pobre nem mais rico por causa de doze reais.
Essa é uma perspectiva, mas sei que existe outra mais próxima do quebra barraco.
Assim os detalhes vão se sucedendo.
Daqui do banco da bicicleta eu vejo o reflexo da lâmpada no monitor da esteira.
Esta luz pode ser aquela no fim do túnel, embora ao assistir uma série britânica bem humorada que detona os métodos do MI5, eu não tenha mais esperança que este mundão seja do bem.
O mundão talvez, os homens...
Ali o protagonista mais velho, que apesar de ter servido com coragem ao serviço, foi colocado para comandar uns poucos agentes colocados em último plano por algum detalhe mal feito.
As falas do senhor são escritas e personificadas de forma magnífica.
Imagine um quebra barraco elevado à milésima potência, mas com graça.
Eu adoro quando escritores do mesmo país colonizador detonam, bem humorados, ou não, os desmandos dessas potências nefastas.
Porém, como ressaltei, não há como pensar numa solução pacífica nas relações internacionais, já que cada nação deseja e é ávida por mais poder, poder e poder.
As custas sempre caem nos menos favorecidos e eu que sou six seven, mais ou menos, vou sobrevivendo fazendo graça e tentando ser gentil.
Deste mesmo lugar vejo uma toalha de mão encostada no braço da outra esteira.
A estampa parece vir da China e tem uma característica Tie Dye, que normalmente é uma técnica manual hindú.
Esta é uma imitação, uma estampa gerada em computador e estampada aos milhares.
O visual é o que vale.
Ficou parecido?
Está ótimo.
Caramba.
Olho novamente para a esteira e a toalhinha já não estava mais lá.
Foi passear com a dona, descendo as escadas ainda com a cola dos adesivos à mostra.
O vermelho do nome dos aparelhos se destacam na pintura preta das máquinas.
As palavras são brancas e fico me lembrando dos caras que fizeram um adesivo para o vidro traseiro dos carros.
Escreveram o endereço em branco sobre o fundo amarelo.
A gente sabia que era uma concessionária de automóveis porque o nome da dita foi escrito em preto, mas não conseguia ler o endereço.
Branco no amarelo.
Impossível.
Os detalhes nos dão pistas do caminho a seguir além do Maps, ou do Waze.
Resta-nos observar bem as nossas conversas internas e nossos hiperfocos.
Nada que é sub ou hiper é muito interessante.
O mais interessante é o equilíbrio, mesmo que estejamos ainda no primeiro degrau da escada com adesivos de alerta
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