Chuva de bênçãos

Chove.
Chove canivetes.
Chuva de bênçãos.
Chuvisco e chovendinho.
Tempestade em copos d'água.
Bolinhos de chuva.
Chove chuva, chove sem parar.
Chuva de arroz nos casais.
Chove lá fora e eu estou tomando a chuva em goles, tentando me esconder sob os toldos aqui e ali na calçada.
Dentro da farmácia faço exames tolinhos, todos gratuitos e fico sabendo que a minha idade corporal é de 55 anos, já o moço de 21 anos que apareceu nesta semana teve o seu veredito:
80 anos.
Entro na dita farmácia com o céu nublado.
Dou meia volta para sair e dou de cara com a chuva.
Nada tempestuoso, apenas gotículas que molham fino.
Meu guarda-chuva com cabo de pato de madeira jaz dentro da mochila, dentro de casa.
Eu gosto de chuviscos, além do gato do desenho animado.
Penso no pessoal dos efeitos sonoros vendo a película e colocando o som em cima da animação.
Genial sincronização como as gotas das chuvas nas poças.
Fico animado em ficar deitadão no sofá com a coberta azul sobre o corpo, assistindo séries britânicas sobre suspenses policiais.
É impressionante o que chove em Londres.
Na Espanha o povo das séries adora sair com aqueles moletons com capuz embaixo da chuva.
Acho que lá ainda não foi inventado o guarda-chuva, ou o pessoal espanhol é mega resistente ao vírus da gripe.
Chove muito nas séries de suspense espanholas.
Não desejo chover no molhado, mas escrever sobre a chuva me enche, me ensopa com uma chuva de ideias.
O ritmo da chuva e a chuva de arroz dos tribalistas, me atravessam como a quantidade de água que sobrou na minha mala com rodinhas, quando atravessei a avenida Faria Lima inteira sob uma chuva com cara de tempestade.
Os ventos fortes balançaram as palmeiras imperiais que ficam em frente ao Iguatemi.
Em 1982 os ventos de cento e vinte por hora em Sorocaba fizeram voar, ou pelo menos entortar, vários tetos de postos de gasolina.
As divisórias internas do Senac foram todas atiradas ao chão.
Um desastre pluvial.
Nada desastroso o dia no qual aprendi a diferença entre fluvial e pluvial.
A chuva de aprendizado me encanta.
E o aprendizado chove na minha horta sedenta desta chuva intelectual.
Caminhar na chuva lava a minha alma, mas não dispensa meu banhão depois desta hora de bike na academia.
Também sempre é bom tomar um banho bem quente depois de tomar qualquer chuva intensa, ou passageira.
Eu gosto bastante da minha careca e em tempo de chuva ela chega a ser de grande valia.
Já que a minha cabeça não necessita ser penteada.
Com a água celeste basta uma passada de mão e ela está seca e super preparada para mais reflexões.
Chover enche os depósitos das cidades que oferecem água para cidades inteiras.
A chuva demonstra a nossa eterna insatisfação.
Quando não chove reclamamos, quando chove, chove demais.
Minha reclamação se faz sobre a impermeabilização das cidades.
Asfalto, lixo e entupimento dos dutos.
Nós os seres humanos que damos murros em ponta de faca nos molhamos e nos encharcamos de desnecessariedades.
É o nosso jeitão, nosso caráter, nossa característica.
Mesmo que precisemos alterar o espírito, somos feitos de setenta por cento de água e é com ela que as reações bioquímicas encharcam e sustentam nosso sistema vital.
Água pra que te quero?
Lágrima ou suor?
Que eu seja inundado por uma enxurrada de abraços.
Uma enxurrada de compartilhamentos de alegria e graça.
Assim o meu planeta água e o de todos os outros nem precisarão de filtros ou máscaras à prova d'água


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