Tempo útil

Andando pelo Itaim, Eraldo me parou para mostrar as meias que ele estava usando.
Imagino que ele tenha dez anos menos do que eu.
Mostrando as meias ele começou a me falar sobre as diferenças das novas gerações, afirmando que a nossa é a geração Z.
Eu já vinha pensando na minha ausência de preguiça para o trabalho.
Ele me disse sobre suas preferências musicais e pelo fato de andar de skate.
Blues, música negra, Red hot e progressivos dos anos 70, são as suas preferências, mas além destas ele mostrou ser uma pessoa Culturada, cheia de conhecimento.
Ele não viu nascer os Progressivos, mas eu vi.
Tudo aconteceu por causa das nossas meias ilustradas por figurinhas sobre um fundo preto.
Na semana passada eu disse para os meus alunos e alunas que me viram pela primeira vez usando bermudas:
Se vocês me virem com um tênis de corrida de marca, uma meiazinha curta e principalmente uma bermuda longa com aqueles muitos bolsos laterais podem atirar para matar.
Rio porque é aquele senhorzinho querendo parecer um garotão.
Gosto desta minha bermuda que uso para bicicletar na academia.
Tenho outra azul e mais uma preta, mas estas são de Tactel.
Pense que esse tactel é algo artificial e esta que uso agora é de algodão.
Nunca gostei e não uso bermudas para dar aulas mesmo quando é permitido.
Não acho bonito.
Uso as minhas duas calças desenhadas por inteiro, dando a dica que sou professor de Arte.
Todos nós estudamos para ministrarmos aulas de Arte e existem muitas linguagens para nos expressarmos como artistas, inclusive como teóricos da história da Arte.
Uma coisa não exclui a outra, pelo contrário.
Um amigo artista se sentiu intrigado ao ver os múltiplos olhos nos meus desenhos e me inspirou a escrever uma frase na Bio do Instagram:
Você vê os meus olhos?
Eu te observo.
Lembrou-me um Outdoor que fiz no Projeto Terra Rasgada, cuja temática propunha que os artistas expressassem seus sentimentos pela cidade de Sorocaba.
Ao ser entrevistado pela TV Tem a repórter me perguntou?
Por que este olho gigante no Outdoor?
Eu respondi cheio de confiança.
Normalmente o povo da cidade é que
Vê os Outdoores, hoje é o Outdoor que observa a cidade.
Eu nunca me esqueço que existe, com certeza, a expressão Conflito de gerações e fico muito atento aos meus comentários sobre as gerações que surgem depois da minha, a tal Z.
Exintem muitos fatores que evidenciam as diferenças entre as gerações neste século XXI.
Existe ainda mais velocidade do que no veloz século XX.
Todas as tecnologias e movimentos introduzidas no século XX, estão sendo ainda mais ligeiras no século XXI.
O fato é que eu acho bonito o trabalho físico integrado à inteligência.
A resiliência então, eu a considero linda.
Para mim, evidencia ainda mais a fala antiquíssima que diz que só não há remédio para a morte.
O resto a gente vai usando como aprendizado.
Penso que o aprendizado tem a obrigação de não ficar guardado só para nós, afinal se partirmos desta, lá se foi o aprendizado individual.
O aprendizado deve ser muito compartilhado, mesmo que aos olhos dos outros possa parecer estranho.
E parece mesmo, já que muitos ainda insistem em anticultura, guerras, xenofobia e tantas outras fobias novivas ao coletivo.
Eraldo me parou na calçada e já foi me ensinando a refletir, tudo a partir de dois pares de meias.
Ao nos despedirmos eu vi a importância do que estampamos em nossas camisetas, por exemplo.
A moça que vinha em sentido contrário trazia a mensagem:
Power girls.
A luta feminina é urgente, porque nós homens ainda temos muito o que aprender.
Vide aquele moço usando o símbolo dos ativistas de ultradireita, red pills, quando preso por espancar e matar uma garota.
Outro dia vi alguém dizendo: o que esperar de pessoas ditas normais que apoiam essas atrocidades?
Você vê os meus olhos e eu me observo


 

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