Quando acontece a chuva

Ao abrir a porta de vidro com maçaneta vertical cromada, me atingiu a primeira gota de chuva e só.
Lá atrás, de manhãzinha, estava deitado e só dei meu primeiro passo para sair da cama e me dirigir à padaria.
Antes de qualquer coisa eu não saio sem um planejamento.
Os planos foram traçados no tempo que fiquei saracotiando na cama, delirando sobre coisas, normalmente relativas à escola.
Minha sorte é que ministro aulas de Arte e isso significa que meus devaneios são inventivos, criando atividades que vão ser compartilhadas com muitas outras pessoas e isso me anima.
Com certeza já sou animado pela minha incontrolável e ancestral ansiedade, porém eu nem seria artista e muito menos professor se não houvesse me acometido o ser ansioso.
Antes da chuva vieram os legumes em salada e os cozidos, acompanhados de uma sensação de fome controlada.
Antes da gota, a garrafa Plástica da água mineral e a troca do filtro Electrolux.
Antes do querosene, as velas e Antes disso o escuro, o breu.
Antes do tato, a audição e o olfato.
Antes de cair na risada ouvi uma piada estranha que falava da minha intuição transcrita em poesia.
Bem antes da minha foto para o primeiro título de eleitor veio a foto com os cabelos compridos que hoje é guardada na minha pasta: Betu Lindu.
Bem Antes dessa Pasta imaginem que eu era um esqueleto ambulante, magrinho, mas gracioso.
O Antes é um antecedente natural das ações pensadas e repensadas, aquelas que nascem da razão, da racionalidade e da organização.
Porém Antes dessas vêm aquelas embaladas na intuição e não desejam base alguma.
Antes do objeto artístico vem aquela ânsia por mostrar ao mundo o que Antes ele não havia visto.
O depois sempre é armazenado no Antes, portanto esse é imenso, grandioso, cheio de volume e volúpia, embora muitas vezes seja desqualificado pelo futuro.
O Antes demanda preparo, astúcia, ou até mesmo preguiça.
Como assim?
Sim, com o anteceder preguiçoso o depois acontece do mesmo jeito, porém mais vagaroso, inclusive como nos garantiu o Martinho da Vila:
Calma, devagarinho eu chego e chego descansado.
Rio Antes e depois.
Esse Antes com A maiúsculo segue devido ao fato de anteriormente eu ter dado ênfase a ele, o verbete Antes.
Esse chama-se corretor ortográfico dos textos nos smartphones.
Ele, o corretor, Antes que você releia ele vai trocando várias palavras que você havia escrito.
Escreve à minha revelia, muitas e muitas vezes.
Antes de tudo uma máquina rebelde, mas ainda mais rebelde e bem Antes dela, sou eu.
Um rebelde tímido.
Antes da gota o copo já ansiava por ela, ou nem precisa ser o copo, o bebedouro já está está lotado delas e ansioso por transformá-las em jato.
Antes do jato, o teco-teco e antes dele o balão.
Antes do balão a data do aniversário e antes dela os nove meses do rebento.
Antes da onda arrebentar, o mar estava calmo feito piscina.
Antes da piscina o lago e antes dele a poça e ainda antes, a nascente.
Anteriormente meu texto era dramático assim como antes de ser careca eu tinha vasta cabeleira.
Esse tempo anterior é o adolescente, onde tudo é terrível e drástico, onde ninguém me ama, ninguém me quer.
Rio porque antes de tudo, isso é muito doido.
Antes da Arte, a loucura e antes dela a incompreensão.
Antes de hoje eu não conhecia Judith Scot.
E antes de mim, quem não conhece, precisa conhecer assim precisa conhecer o nosso Arthur Bispo do Rosário.
Antes de serem três rodinhos de banheiro e cozinha, para o Bispo os três, um ao lado do outro com as borrachas puchadas em tamanhos diferentes, é Arte e Obra.
Para Judith, Objetos eram compostos por ela com as linhas e cordas anteriormente pensadas para outra serventia.
Antes da chuva que cai lá fora, eu remexia minhas memórias e alimentava o meu non sense.
Antes do non sense, o total senso de dever para com o inesperado.
Enquanto aguardo embaixo da marquise imaginando meu futuro próximo no sofá, esse antes vai dando espaço ao depois.
Tudo isso já aconteceu bem antes dessa tempestade e anseia por mais antecedentes que possam migrar para um futuro brilhante.
Antes de mais nada, Tudo

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