Uberlândia

O moço que me levou até à rodoviária não tem trinta anos.
Suave e tranquilo no volante.
Tão tranquilo que o Wase queria nos levar sabe Deus pra onde.
Decoramos até o nome da minha rua, já que o aplicativo pediu pra ele entrar na rua perpendicular porque havia muito trânsito na Belmira Loureiro de Almeida.
A perpendicular é uma rua estreita, portanto ele teve que ir um pouco mais em frente.
E a moça elétrica do aplicativo disparou: A cem metros pegue a rua Belmira Loureiro de Almeida.
Mas estávamos subindo e a Belmira fica atrás da gente.
E ela mais uma vez, mais outra e outra: A cem metros pegue a rua Belmira Loureiro de Almeida.
Pegamos.
Lógico que depois de subirmos um tanto mais, depois de entrarmos na garagem do prédião vizinho e darmos meia volta.
Aí pegamos a Belmira.
Se tivéssemos pego a Belmira mesmo ela nos indicaria melhor o caminho para a rodoviária.
Foi só pegarmos a rua Belmira e logo a moça elétrica falou vire à esquerda na rua Félix.
Rua Félix?
Nem existe rua Félix.
Empostei a minha voz de locutor de supermercado e disse: Siga na Belmira e vire à direita na Avenida Sâo Paulo.
Claro que o mapa que o aplicativo mostrava é o de Campo Mourão no Paraná.
Não, não era, mas era como se fosse.
Uma nova era.
A da inteligência artificial.
Ainda bem que não trouxemos a Belmira, afinal ela já teria se indignado e feito o maior barraco.
Belmira é mulher brava.
Dispararia:
E aí mocinho, você está indo pra Rodoviária, ou resolveu dar um rolê?
Calma Belmira, o moço é novinho e calmo, ele colocou o endereço correto, é a Bia que está errada.
Bia?
Ah não, Bia é a do Banco.
Enfim, a inteligência acoplada ao tal app deve ser a do Gerson.
Ele quer levar vantagem em tudo.
Mas afinal que vantagem Maria leva?
Sei lá, é o Gerson, não a Maria.
Peraí, o nome do moço não é Mário, já vou avisando.
Perguntei ao moço motorista se ele estava começando as corridas agora, ou já estava encerrando?
Ele respondeu que era a primeira corrida do dia porque ele havia saído do serviço.
Então quero avaliar que não é a primeira corrida dele mesmo, afinal ele como eu, esteve correndo desde bem cedo.
Pra ele a necessidade desse exercício todo é o fato dele estar noivo.
Está comprando uma casa com a namorada e eles estão juntos há três anos e meio.
Para os dias atuais esse tempo é uma espécie de recorde, mas é que vocês nâo conheceram o moço.
Pensa na tranquilidade.
Uma tranquilidade só esmorecida quando eu observei a ele que a minha querida adora dirigir na esquerda, mesmo que centimetros mais tarde tenha que fazer uma conversão à direita.
Aí ele se encheu de coragem como eu e disse: Meu Deus, a minha Ana Carolina é assim também.
Só que ele exagerou um pouco.
Ela adora uma briga no trânsito.
Aí fui eu que me acovardei.
Ôpa, a minha querida não.
Ela odeia brigar no trânsito.
Só uma única vez, quando ela dirigia o Fiat 147 azul e o busão que estava atrás buzinou.
Ela só fez um sinal com a mão pra fora do vidro e mandou ele passar por cima.
Resultado, o cara fez ela invadir o canteiro lateral da avenidona.
O resto a minha querida não me contou.
Afirmo através dessas mal traçadas linhas que a querida é tão sensitiva que foi só eu olhar para o celular no meio da conversa com o noivo da Ana Carolina que apareceram duas mensagens apagadas.
No mesmo instante ela me disse que foram figurinhas erradas.
Apertei o botão do microfone do Zap e mandei essa:
Amor, suas orelhas estavam vermelhas nesses instantes anteriores?
Se sim é porque eu e o Uber estávamos falando super bem de você.
Ela é um encanto, uma artista de mão cheia, uma mulher de fibra e coragem.
Fosse ela a moça do app e tudo seria diferente.
Não haveria caminho errado, nem lei do Gerson, nem gato Félix, tudo e todos nós andaríamos na linha.
Eu disse ao moço:
Pode seguir em frente, aí você me deixa no posto em frente a rodoviária.
Ele estacionou literalmente no posto e posto que foi na vaga, queria ouvir de mim algo que fizesse sentido.
Mandei essa:
Garoto, continue conversando bastante com sua amada e sejam muito felizes.
Ela é mais firme, você é mais tranquilo e assim, regando o caminho com inteligência, nada será artificial.
Pus a mochila nas costas e fui correndo comprar a passagem que me levará para um abraço apertado, enlaçado com força, para que eu me coloque no meu lugar de passageiro

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