Avante

Caímos na real.
Não.
Nos levantamos e caminhamos na real.
A tal Realidade que é tantas vezes questionada, mas que enquanto vivemos, passeamos por ela com seus enroscos, barrancos, lombadas e tantos outros impecílios aos quais somos submetidos.
Escrevo assim logo após ter saído de casa e ser exposto aos sons ruidosos e às luzes faiscantes dos carros que vinham na direção contrária à minha.
Já é noite e eu caminho ligeiro.
Ao passar pelo ponto de ônibus eu vejo muitas pessoas aglomeradas à espera de condução.
Distâncias longas, ou mais curtas, porém todas elas vão demandar tempo para chegar aos seus destinos.
O tempo é bonito de se ver.
Não ver apenas no pulso, no visor da bike, no canto da TV, ou no relógio digital que está posto no paredão.
Ver o tempo e suas estações, suas marcas, seus impulsos, sua métrica, sua inexistência pragmática.
O tempo não existir no concreto é maravilhoso de se ver e de se imaginar.
Nos filmes onde as pessoas são presas e vão riscando a parede para marcar a passagem desse tempo é onde aparece a própria interpretação da sua existência.
Escrevi numa letra hoje cedo que o Passado é a revelação do mistério anterior.
A cada segundo nos é revelada uma parte do misterioso.
Ou não?
Fico muitas vezes pensando no sujeito que no passado nem dormiu, porque durante o dia percebeu que o sol se movimentava enquanto ele vivia o seu dia.
Penso no tempo que ele levou para descobrir que Sempre o Sol nascia num canto e dormia no outro.
Foi inventada a divisão da nossa vida e a de todo mundo em dias, meses, anos, séculos e milênios.
Nessa sociedade de consumo desenfreado sabemos que essa divisão serve ao poder nada misterioso do dinheiro.
Novamente o que escrevo é tão óbvio que fico até meio constrangido, porém não fico constrangido porque me recuso a saber o que significa isso.
Eu não acho nem graça na frase Tempo é dinheiro.
Dinheiro é quase tudo que se move para barulhar nossa cabeça e divertir as nossas breves sensações de prazer.
Só o tempo dirá.
O tempo não dirá nada, quem diz alguma coisa somos nós.
O dito dinheiro compra o entretenimento e desarma nossa gana em dividir as coisas com o maior número de pessoas possível.
Eu comentei ontem que sempre tive tudo o que eu quis na infância e na juventude.
Nunca me faltou nada, mas eu sempre tive uma noção do não desperdício.
Uma noção de simplicidade e para dar um exemplo vou incluir uma coisa que nem a dona Anna compreendia.
Eu adoro ganhar coisas usadas.
Roupas, por exemplo.
Não serve mais para o outro e o outro me presenteia.
O último desses presentes é uma calça sobre a qual já desenhei em todos os seus espaços.
Frente e verso.
Uma camiseta de manga longa onde está inscrito o grafismo japonês que significa Esperança, nesse frio ainda me cobre a pele.
Não estou lembrado de usar sapatos, ou tênis já usados, mas se gostasse do dito, usaria com certeza.
Assim eu pago mensalmente a academia que pretendo usar para não perder os movimentos no futuro.
Futuro é a casa do mistério.
Esse é tão misterioso que se planejarmos demais como desenhá-lo perderemos o tempo de presentear os outros com nossa existência.
Chico Anísio ao ser perguntado se ele tinha medo da morte, respondeu que tinha pena.
Vale a pena.
Escrever sobre o que deixa os olhos e a cabeça faiscantes.
Sons ruidosos que possam desencadear dúvidas, questionamentos e pés no acelerador.
Cuidado é algo que não se deve pedir a ninguém.
Como assim: Tome cuidado?
Cuidado é um sabor suave que não desce pela garganta.
Ele vem junto com o sangue que trafega pelas veias.
Que eu possa cuidar porque meus movimentos foram gerados para isso.
Se você precisar de uma toalha ao sair do banho, eu sempre direi que não, mas em segundos ela estará nas suas mãos.
Tem uma passagem bíblica sobre isso, mas como não sou santo, esse meu cuidar sempre será precedido por uma brincadeira, enquanto o tempo que não existe teima em ser ainda mais rápido do que eu

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